HISTÓRIA DA VISOGRAFIA

ESCRITA VISOGRAMADA DAS LÍNGUAS DE SINAIS VISOGRAFIA
 

INSERÇÃO E APRENDIZAGEM DE LIBRAS

Comecei a aprender a Língua Brasileira de Sinais (Libras), no final de minha graduação em Música - Licenciatura, no ano de 2011. A nova disciplina inserida por força de lei na grade curricular do curso, me levou a cursar 60 horas de Libras para cumprir os créditos da referida disciplina.

A partir daí, outros cursos de extensão se seguiram. Pouco tempo depois, já me iniciava na docência de Libras em cursos de curta duração, com a finalidade de fixar e desenvolver essa língua. Após uma série de cursos como estudante e outros como docente, me lancei à pesquisa na área da Libras, o que me exigiu uma formação na área.

Foi então que iniciei em 2013, uma pós-graduação latu senso em Libras, pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci. No curso, além de toda a formação recebida, realizei uma pesquisa inédita no Estado de Mato Grosso, que versou sobre o ensino de música para visuais (pessoas que se comunicam linguisticamente pelo meio visual), que originou um glossário de sinais da área musical em Libras.

Em 2014, fui contratado como professor substituto na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Por já ter conhecimento do SignWriting, fui designado para a disciplina de Escrita de Sinais. A disciplina me levou a aprendizagem da Escrita das Línguas de Sinais (ELiS), que aprendo rapidamente e a insiro no meu dia a dia.

No entanto, em sala de aula (tanto no curso de Letras-Libras, na disciplina de Escrita de Sinais, quanto em cursos de extensão) o ensino-aprendizagem da ELiS, nunca fora bem sucedida. Em contrapartida os alunos sempre exaltavam a "visualidade" do SignWriting. Sempre contrapunha essa ideia, provando aos cursistas por meio da escrita e da leitura, que o mesmo, também possui seus aspectos abstratos.

Dada ao número excessivo de caracteres do SignWriting e o exacerbado detalhamento de sua grafia, o que o torna denso e pesado, e a abstração da ELiS, mesmo sendo esta considerada leve e prática, eu percebi em minha prática docente, que uma escrita de língua de sinais precisa ser ao mesmo tempo visual e possuir poucos caracteres.

Foi então que no início do ano de 2016, em uma tarde de domingo, iniciei então uma releitura desses dois sistemas de escrita de sinais e uma série de experimentos que provaram que essa "fusão", poderia tornar a Escrita de Sinais, um sistema de grafia e registro de insformações das Línguas de Sinais, de fácil aprendizagem, grafia e descodificação.

O principal objetivo na elaboração desse novo sistema, foi diminuir o número de caracteres usados para a grafia das línguas de sinais e também, tornar o processo de grafia e leitura, simples e rápido.

Baseado na minha experiência de ensino-aprendizagem de SignWriting, que se tornou improdutivo ao longo do tempo, pelo excesso de caracteres e da ELiS que em minha experiência, nunca foi bem aceita e, sendo também de meu interesse particular, como pesquisador das línguas de sinais, desenvolver uma escrita de sinais simples para o meu uso diário, em pesquisas nesta área.


O DESENVOLVIMENTO DA VISOGRAFIA

Primeira fase: os primeiros experimentos que deram origem a escrita visogramada da língua de sinais 

O desejo de grafar sinalemas da Libras pela ELiS seguindo a estrutura do SignWriting, já estava presente em minha cachola a um certo tempo, no entanto, eu relutava em coloca-lo em prática. Porém, numa determinada tarde de domingo, veio-me a cabeça uma imagem de um sinal escrito.

Corri para o escritório, peguei caneta e papel, redigi um sinalema e depois mais outro, até que eu tinha um total de quatro sinalemas escritos. Mostrei-os para um profissional da Libras com vasta experiência no ensino da Libras, no entanto, sem muito conhecimento da Escrita de Sinais e para minha surpresa, ele conseguiu ler todos os sinalemas escritos.

Sinalemas: APRENDER, LARANJA/SÁBADO, OUVIR/OUVINTE, CHEIRAR.

Percebendo que os sinalemas podiam ser facilmente lidos, escrevi uma fase e apresentei ao profisisonal da Libras, já referenciado antes, que para minha supresa, conseguiu ler a frase, apresentando apenas algumas dúvidas em relação a estrutura usada para a escrita dos sinais no contexto a ele apresentado.

Frase: A pessoa chamada Claudio é professor.

Logo depois, apresentei a ideia a minha orientadora de doutorado e a possibilidade de transforma-la numa pesquisa se tornou real. A partir daí selecionei os caracteres da ELiS e do SignWriting que seriam usados na constituição do novo sistema.

Propus um curso de extensão para testar a escrita na aprendizagem. Os primeiros projetos não foram operacionalizados, dada a burocracia no processo de apreciação dos mesmos pelo departamento do qual sou membro.

Tentativa de estruturar a VisoGrafia.

Após a primeira tentativa, de escrever sinalemas da Libras por meio de um novo sistema de escrita de sinais, comecei a me preocupar com a estruturação da mesma, pois havia percebido que a nova grafia era viável. Experimentei escrever o alfabeto da Língua Portuguesa que é representado na Libras manualmente por meio da digitação manual, ou seja, da datilologia.

O primeiro problema de representação de configuração de mão, surgiu com a letra S, e posteriormente com a letra T. Em relação a letra S, preferi, primeiramente, tentar representa-la somente pelo uso do visografema de orientação de palma.

No entanto, este precisava se diferenciar, pois se tratava da representação da configuração de mão. Experimentei escreve-la em formato circular, ideia rapidamente por mim, abandonada.

Primeira tentativa de representar o alfabeto manual da Língua Portuguesa usado na Libras por meio da datilologia.

A solução para este problema, foi adotar a representação da configuração de mão S usada na ELiS que representa a mesma com um grande ponto, pois a admite como sendo uma somatória das configurações de dedos fechados de toda a mão.

Segunda tentativa de grafar o alfabeto manual.

O segundo problema de representação gráfica, surgiu na grafia da letra T, que se asemelhava muito com a da letra F. A solução encontrada para distinguir as duas configurações de mão, foi grafar na letra T, em cima do visografema que representa o dedo polegar, um pequeno ponto. 

O último experimento com a grafia do alfabeto, me levou a uma estrutura que permaneceu quase que inalterada. Esta estrutura do alfabeto manual escrito pela VisoGrafia foi levada e apresentada aos alunos do curso de extensão de Escrita de Sinais, que foi ofertado pela Direção do Instituto de Educação da UFMT, durante a terceira fase da VisoGrafia.

Terceira tentativa de representar graficamente o alfabeto manual.

Foi admitido então novas grafias para as configurações de mão, considerando apenas a escrita dos dedos estendidos, curvos ou muito curvos e novos visografemas foram desenvolvidos para as orientações de palma (para medial, distal, cima e baixo), conforme figura a seguir.

Novos visografemas de orientação de palma.

Foi definido então que o alfabeto manual seria escrito levando em consideração apenas os dedos ativos na configuração de mão (dedos estendidos, semi-curvos e curvos). Também foram selecionados os visografemas que fariam parte do sistemas VisoGrafia. Um total de 64 visografemas e 24 diacríticos. Defini também a estrutura linear como sendo a ordem do novo sistema. 

Nesta fase do desenvolvimento da VisoGrafia, foram selecionados os visografemas que compuseram o primeiro visograma. A VisoGrafia nasceu com um total de 64 visografemas, distribuídos em quatro específicos de paremas, sendo estes o de configuração de dedos, subdivididos em configurações do polegar (1a) e configurações dos outros dedos (2b); o de orientação de palma (2); o de locação (3) e o de movimentos subdivididos em movimentos de braço (4a), de dedos e de punho (4b) e de movimentos faciais e corporais (4c) (expressões não manuais)  

Primeiro visograma da VisoGrafia

Além dos visografemas que compuseram o primeiro visograma, foi necessário desenvolver diacríticos (espécie de sinal gráfico utilizado sobrescritamente ao visografema), para complementar a grafia dos sinalemas pois alguns aspectos dos mesmos não eram contemplados pela escrita utilizando somente os visografemas ou ainda, os visografemas sobrescritos a outros como diacríticos. O primeiro sistema de diacríticos da VisoGrafia era composto de 24 símbolos gráficos, conforme tabela a seguir. 

Primeiro sistema de diacríticos da VisoGrafia

Na sequência, realizei uma série de experimentos com acadêmicos (professores e estudantes do curso de Letras-Libras) que provaram a eficácia da escrita e da leitura de sinais por meio da VisoGrafia, pois os sujeitos possuíam pouco ou nenhum conhecimento de Escrita de Sinais.

COMPROVAÇÃO DA VIABILIDADE DA GRAFIA E DA LEITURA 


Todos os experimentos para a comprovação da viabilidade da escrita e da leitura da Libras por meio da VisoGrafia, foram realizados em maio de 2016, a partir da primeira estruturação desse novo sistema de escrita de sinais. 

Diversos sinais foram escritos em pequenas filipetas de papel e foram mostrados a profissionais da Libras, dentre eles acadêmicos estudantes, professores e intérpretes da Língua Brasileira de Sinais, tendo como críterio de seleção, possuir pouco ou nenhum conhecimento da escrita de sinais.

Em suma, todos os experimentos mostraram resultados positivos para a viabilidade, primeiramente da escrita, pois todos os sinais da Libras escolhidos, foram por mim grafados, sem problemas de representação, e, segundamente, os sinais foram lidos pelos sujeitos pesquisados, com considerável facilidade e rapidez. 

Vejamos dois experimentos de leitura:

Experimento de leitura realizado pela acadêmica R.S.

No experimento, a acadêmica recebeu uma filipeta contendo quatro sinais escritos pela VisoGrafia, que deveriam ser lidos e o significado em Português, deveria ser escrito no espaço destinado para esse fim. Os sinais eram estes: PESQUISA/PESQUISAR, CASA, SABER e ACREDITAR. Os sinais são bimanual assimético, bimanual simétrico e compostos, repectivamente. Gramaticalmente, sinal polissêmico podendo em contexto ser substantivo ou verbo simples, substantivo e verbos simples, respectivamente. 

A atividade foi orientada para a finalidade da verificação da viabilidade da leitura, que ficou comprovada, pela rápida leitura realizada por R.S. Segundo Benassi, Duarte, Souza e Padilha (2016), a acadêmica realizou a leitura em três minutos e necessitou de explicação apenas para descodificar o visografema de movimento do primeiro sinal escrito. 

Experimento de leitura realizado pela acadêmica A.B.R.

De todos os experimentos realizados, este foi o maior. A acadêmica recebeu duas filipetas, sendo que nesta estão escritos seis sinais: PESQUISA/PESQUISAR, CASA, SABER, ACREDITAR, LARANJA/SÁBADO e ENTENDER, dois sinais a mais que na filipeta do experimento anterior. Esses dois sinais são monomauais e gramaticalmente são substantivos e verbo simples. 

Por sua experiência com a Escrita das Línguas de Sinais (ELiS) a acadêmica leu os sinais rapidamente e grafou em Português os seus significados. Além disso, a acadêmica sugeriu inclinar a escrita dos visografemas para torna-los mais visuais. Com isso ficou provada a viabilidade da grafia e da leitura de sinais da Libras pela VisoGrafia.   


Segunda fase: definição da estrutura e da forma da escrita dos sinalemas

Com o visograma totalmente desenvolvido, contando a VisoGrafia ainda com um sistema de diacríticos, a mesma entra em sua segunda fase com a definição da forma da grafia dos sinalemas, que deveria se dar da seguinte forma: 

1) os sinalemas são grafadas da esquerda para a direita linearmente - (Frase: MEU NOME É CLAUDIO); 

2) os sinalemas cuja locação for a cabeça, o tronco, o membro, a mão ou os dedos, a escrita deve obedecer a seguinte ordem: I) locação; II) orientação da palma, III) configuração de dedos do polegar para o mínimo. O polegar deve ser escrito no meio do visografema de orientação de palma e os demais no topo; IV) movimentos e por último as expressões faciais e corporais - (Sinalema: CHEIO/ABARROTADO);

3) os sinalemas articulados no espaço neutro, não terão a locação escrita, pois ficará a mesma subtendida - (Sinalema NOME);

4) para demonstrar o contato de mão com alguma parte do corpo, deverá ser usado alguns dos símbolos gráficos a seguir: * (asterisco) para o toque da mão; + (mais) para pegar e > ou <  (maior ou menor) para o toque da mão entre os dedos - (Sinalema ACASALAR);  

5) nos sinalemas em que a mão se aproxima do ponto de contato mas não o realiza, devem ser escritos as configurações de mão de ambas as mãos, sem escrever os diacríticos de contato - (Sinalema SIGN WRITING); 

6) em sinalemas com configurações de dedos estendidos ou semi-curvos em que apenas um ou dois dedos realize contato com uma determinada região do corpo ou que se movimente diferentemente dos demais dedos, os números de 1 a 5 poderão ser usados para indicar precisamente qual dedo faz o contato ou o movimento. Correspondências: 1 - polegar; 2 - indicador; 3 - médio; 4 - anular (anelar) e 5 - mínimo;  

7) em sinalemas cuja orientação da ponta do dedo seja para frente combinada com orientação de palma para medial, orientação de ponta de dedo seja para trás combinada com orientação de ponta palma para distal, deverão ser usados os seguintes diacríticos:

8) em sinalemas cuja orientação da palma for medial ou distal e o polegar for estendido, o mesmo deve ser escrito no lado do visografema de orientação da palma que indica o dorso da mão. Nos demais, deve ser escritos na palma, salve exceções de visualidade - (Sinalema LIBRAS);  

9) sinalemas monomanuais devem ser escritos da seguinte forma: observando a ordem expressa no item 2, obedecendo as características de dominância da mão, independente do sinalizador/escritor ser destro ou canhoto, a escrita deste tipo de sinal deve ser sempre à direita - (Sinalema SINAL/SINALEMA);

10) sinalemas bimanuais simétricos devem ser escritos observando as regras grafotáticas expressas no item 2, para as duas mãos. Primeiramente, devem ser escrita a mão esquerda, seguida da direita. Em sinalemas cuja direção do movimento seja igual para as duas mãos, o movimento deve ser escrito embaixo das configurações das mãos centralizado - (Sinalema LIVRO). 

Já nos casos em que as mãos não compartilhe a mesma direção do movimento, este poderá ser escrito de duas formas: embaixo de cada mão (Sinalema HOJE), 

ou ao lado dela (Sinalame AFASTAR);

11) sinalemas compostos ou divisíveis, deve ser utilizado o sinal gráfico abaixo 

entre as partes, linearmente para indicar, como na ELiS, as partes dos sinalemas (Sinalema ABAJUR);

12) em sinalemas assimétricos a escrita deve observar as regras expressas no item 2, para cada mão. A grafia deve se dar sempre da esquerda para a direita - (Sinalema SEMANA). 

Sinalemas assimétricos com a orientação da palma para frente ou para trás cujo dorso ou palma funcione como ponto de contato, em virtude da estrutura desses visografemas, o ponto de contato dorso e palma deve ser sobrescritos para deixar claro o registro da informação - (Sinalema LEI);

13) os sinalemas com mão passiva ou de apoio cuja a orientação de palma fosse para cima ou para baixo, que constitui a palma ou o dorso, respectivamente, como pontos de contato para a mão dominante, deveria ser escrito apenas o ponto de contato (palma ou dorso), uma vez que, o formato da mão não implica disjunção, ou seja, em um sinalema com mão de apoio, cuja orientação da palma seja para cima, em que a mesma sirva como ponto de contato para a mão dominante, a mudança do formato da mão não, implica na mudança do significado do sinalema. 

Assim sendo, a grafia deste tipo de sinalema, deve considerar apenas o ponto de contato da mão de apoio

14) os sinalemas cuja estrutura seja a datilologia (representação manual das letras do alfabeto da língua oral), as letras devem ser escritas linearmente da esquerda para a direita;

15) os números poderão ser grafados de duas formas, observando as especificidades constitucionais dos números na Libras: os números cardinais devem ser grafados prioritariamente em algarismos indo-arábicos - 1, 15, 250, 3458 e assim por diante, no entanto, poderão ser grafados "por extenso" - (Exemplo 1), aconselho o uso da grafia dos números cardinais "por extenso", apenas dos números de 1 ao 9. Os números quantitativos devem ser grafados observando as regras da língua de sinais para os mesmos, ou seja, a grafia pode ser dar nas duas modalidades (em algarismos indo-arábicos e "por extenso"). Na grafia "por extenso", observar que os mesmos são sinalizados próximos no quadrante formado pela lateral da cabeça e linha do ombro, sendo que nos números de 1 ao 4, a orientação da ponta do dedo é para cima - (Exemplo 2). Os números cardinais também poderão ser grafados pelas duas modalidades. Na grafia em algarismos indo-arábicos, o sinal de grau (º) deverá ser substituído pelo visografema de movimento para cima e para baixo (Exemplo 3) do primeiro ao quarto (Exemplo 4) e para esquerda e para direita (Exemplo 5) do quinto ao nono, incluindo o 0º (Exemplo 6), sempre sobrescrito a casa que corresponde a unidade. Em relação a grafia por extenso, o mesmo princípio deve ser observado. Aconselha-se a utilizar a grafia por extenso do primeiro ao nono apenas (Exemplo 7);

16) o sistema de pontuação é similar ao admitido pela ELiS. Nela, o ponto final é vazado para que não haja confusão com o ponto que representa a configuração de dedo "fechado". Os dois pontos também apresenta esta estrutura para não haver confusão em relação aos dois pontos que constitui o diacrítico de movimento com repetição igual. Os demais componente desse sistema são similares ao da grafia da língua oral, conforme tabela a seguir:

17) Sinais não manuais e ENM também são passíveis de serem escritos na VisoGrafia. Recomenda-se, em textos acadêmicos o uso de ENM gramaticais apenas. Em textos literários, o uso das ENM é livre. Na estrutura da VisoGrafia, os símbolos usados para escrever sinais não manuais e ENM, são considerados apenas diacríticos e não entram na contagem dos visografemas que compõem o visograma desse sistema de escrita de sinais.

Tendo estruturado o a forma de escrita dos sinalemas, números e sistema de pontuação, a VisoGrafia estava pronta para ser inserida e testada no processo de aprendizagem. Um projeto de curso de Extensão foi apresentado à direção do Instituto de Educação (IE), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que o aprovou, dando início a terceira fase da VisoGrafia.  


Terceira fase: aplicação da VisoGrafia no processo de ensino-aprendizagem e convenção do sistema de escrita

O curso foi implementado e contou com um total de 33 estudantes matriculados. Deste montante, dois alunos eram visuais (surdos) e os demais ouvintes. Sete estudantes ouvintes dentre os 31, acompanharam as aulas por vídeo conferência e aulas em sistema EAD. No decorrer do curso, iniciado no segundo semestre de 2016, ocorreu na UFMT uma paralisação, em que alunos de diversos institutos, incluindo o IE, reivindicando melhorias em seus cursos/institutos, impediram professores e técnicos de realizarem suas atividades. 

Em decorrência deste fato, algumas aulas do curso foram realizadas em um Ambiente Virtual de Aprendizagem para todos os alunos. As aulas eram gravadas em vídeo e também as atividades eram preparadas e postadas no drive virtual que era acessado pelos estudantes, dando sequência ao seu aprendizado.     

No curso de extensão, com a intervenção dos cursistas ouvintes e visuais, decidiu-se alterar a estrutura da escrita das configurações de mão. Passou-se a partir daí, a escrever todos os dedos, independentemente da posição, conforme exemplifica o sinalema TRABALHO/TRABALHAR escrito abaixo:

A sugestão de grafar todos os dedos, independente de qual configuração os mesmos apresentem, foi dada por um estudante visual. A sugestão foi debatida, aceita e implementada pois todos os alunos concordaram que desta forma os sinalemas escritos seriam mais visual. 

Também, convencionou-se que os visografemas para os dedos estendidos seriam móveis e poderiam ser girados em quaisquer direções, bem como, as orientações de palma acima citadas, passaram a ter a aplicação deste mesmo princípio. Esta estrutura fora definida na primeira fase e convencionada nessa em função de passar pelo crivo dos estudantes.

Além desses aspectos, com a colaboração dos alunos visuais e ouvintes, os visografemas de movimento para frente, para trás e para frente e para trás  foram alterados, levando em consideração o princípio da placa de trânsito "siga em frente", foi admitido nos visografemas de movimentos para frente, para trás, para frente e para trás 

Aos cursistas eu apresentei a proposta  de que no caso do braço atravessar de um lado do corpo para o outro, o sinalema deveria ser grafado com uma linha que representasse o braço. Os mesmos debateram e unanimemente decidiram convencionar a proposta como uma regra grafotática da VisoGrafia.   

No curso foi apresentada a estrutura linear de escrita dos sinalemas compostos e divisíveis. No entanto, os cursistas apontaram que em alguns casos, os sinalemas escritos não ficavam muito visíveis. Assim sendo, propuseram, debateram e convencionaram que os sinais seriam escritos tanto linear horizontalmente quanto verticalmente, observando a visualidade da execução.  

Tivemos amplas discussões a respeito da estrutura da escrita do sinalema FAMÍLIA e todos os outros que assumem o mesmo tipo de articulação. O mesmo foi escrito como sendo um sinal monossílabo (figura 01), com movimento de giro completo do pulso. No entanto, as últimas reflexões sobre essa temática, nos levou a definir que a grafia desse tipo de sinal, fica mais fidedigna, separando-o em duas partes (figura 02), uma com orientação de palma para frente e outra com a orientação da palma para trás, como nos exemplos abaixo:

Nesta fase da VisoGrafia, refletimos sobre a ironia. Apesar de pouco explorada e entendida de forma equivocada, a mesma também é um recurso que pode ser explorado textualmente na língua de sinais. Como em nossos experimentos de escrita, a ironia não ficou bem expressa na grafia das expressões não manuais, criamos um símbolo específico para esse fim. Esse ponto foi chamado de ponto de ironia.

Convencionamos também na escrita de sinais VisoGrafia, o uso travessão. No discurso direto, ele marca a fala de um personagem ou mudança de interlocutor nos diálogos. Serve também para marcar expressões ou frases explicativas, intercaladas. É usado ainda, para destacar algum elemento no interior de uma frase, servindo muitas vezes para realçar o aposto ou substituir a utilização de vírgulas, ponto e vírgula ou dois pontos em alguns casos.

As aspas - " " - são utilizadas na escrita para indicar citações; destacar palavras pouco usadas, tais como, palavras estrangeiras (embora, para este caso, seja preferível o itálico), palavras com outro sentido, como afetivo, irónico, etc.). Já os - ( ) - parênteses são utilizados para se fazer um comentário ou se dar pequenas explicações a respeito da enunciação anterior.

Com as mudanças implementadas no sistema de escrita de sinais VisoGrafia, por meio da intervenção dos cursistas visuais e ouvintes, o número de caracteres da VisoGrafia diminuir para 46. Alguns caracteres foram excluídos e outros alterados. 

Segundo visograma da VisoGrafia

Os visografemas de movimentos faciais e corporais foram, a partir do debate e convenção dos alunos, rebaixados à categoria de diacríticos. Sendo assim, o número de diacríticos subiu para 55.

Segundo sistema de diacríticos da VisoGrafia


Estrutura da escrita do polegar em relação à mão

Uma das principais dificuldades dos aprendentes da VisoGrafia, apresentada ao longos do curso de extensão e das disciplinas de escrita de sinais nas quais a VisoGrafia foi aplicada, foi em relação à escrita da orientação da palma e a orientação da ponta dos dedos, relacionadas a posição do polegar. 

Para facilitar o processo de aprendizagem, um texto explicativo com imagens foi inserido no drive em que as vídeo-aulas eram postadas. Essas explicações também foram inseridas no website da VisoGrafia.

Nas orientações de palma para frente e para trás, a regra é simples: grafa-se o polegar tal qual é visto pelo próprio escritor, ou seja, a visão daquele que escreve. No caso da orientação de palma para frente combinada com orientação de ponta de dedo para medial, o polegar deve ser escrita na parte de baixo do visografema de orientação da palma. Sendo a ponta de dedo para a distal, o polegar deve ser escrito em cima. 

Nas orientações de palma para cima e para baixo, a regra é simples: o polegar sempre será escrito do lado do visografema que representa a palma da mão, estando o mesmo estendi- do ou não. Não há, portanto, exceções a esta regra. Em ambas as orientações de palma, quando o eixo da palma da mão ou orientação de ponta de dedo estiver para frente, não há a necessidade de escrever o diacrítico de ponta de dedo.

Isso porque, quando posicionamos as mãos com essas orientações de palma (para cima/para baixo), as posicionamos naturalmente com as pontas de dedo para frente, logo, não é necessário escrever diacrítico de orientação de ponta de dedo. 

No caso das orientações de palma para medial e para distal, há uma convenção de que sempre que o polegar estiver estendido na horizontal (_), sua escrita será realizada no visografema de orientação de palma do lado que representa o dorso, ou seja, do lado colorido. Nas demais posições, sem exceção, a escrita deverá se dar no lado que representa a palma, o lado branco do visografema. 

É necessário observar que nessas duas orientações da palma, estando as pontas dos dedos para frente (medial e distal) e para trás (distal), é preciso escrever os diacríticos de ponta de dedo (para frente ou para trás). 


SOBRE O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM

No curso, além da convenção do sistema de escrita por alunos visuais e ouvintes, obtivemos dados sobre a aprendizagem da VisoGrafia. Na primeira fase, realizamos experimentos que provaram a viabilidade da escrita de sinalemas, como também sua leitura de forma rápida e confortável.

No processo de ensino-aprendizagem no curso de extensão, com apenas sete aulas, muitos cursistas já escreviam e liam sinalemas escritos em VisoGrafia, sendo que quatro dos estudantes, escreviam enunciados completos em Libras pela VisoGrafia. Esses dados apontam para a rápida apreensão do sistema, que foi considerado pelos alunos visual e a rapidez do aprendizado relacionado com baixo número visografemas.

A nossa escrita de sinais foi aplicada em duas disciplinas de cursos de graduação em Letras-Libras - Licenciaturas. A primeira foi de um curso modular semi-presencial, com turma constituída por alunos visuais (surdos) e ouvintes. 

Palavras escritas: 1) MEU; 2) SINAL (propositalmente faltando a letra N, percebida pelo aluno); 3) EVA; 4) HOJE. 

Como é comum a este curso que é modular e semi-presencial, aconteceram duas aulas presenciais, nas quais a VisoGrafia foi mediada na estrutura até então vigente. Já no final da primeira aula, os alunos conseguiram escrever seus nomes em datilologia e ler palavras simples escritas em datilologia pela VisoGrafia, tais como as da figura acima.

Na segunda aula desta mesma turma, várias atividades foram aplicadas, sendo que duas delas foram as mais marcantes: uma em que os estudantes deveriam escrever o próprio sinal, e outra em que deveriam ler sinais escritos em pequenas filipetas de papel por eles sorteadas. O resultado foi surpreendente e positivo em ambos os casos.

Em alguns casos, na escrita do sinal nominal ou sinal próprio, foram necessárias explicações adicionais e várias adequações, dado o pouco contato com o sistema de escrita de sinais VisoGrafia, e também pelo pouco conhecimento viso-morfológico dos acadêmicos. A seguir, apresento um quadro com alguns dos sinais lidos pelos alunos. Dos cinco sinais escritos, quatro foram lidos corretamente e um não.  

Na segunda disciplina, em um curso presencial modular com 32 horas de duração e com turma constituída por alunos ouvintes, o desenvolvimento dos mesmos foi similar ao da turma anterior nos dois primeiros dias de aula. Foi o primeiro contato dos acadêmicos com a escrita de sinais, e no segundo dia, todos os matriculados leram e escreveram sinais com maior ou menor dificuldade.

Alguns materiais didáticos produzidos pelos acadêmicos de Letras-Libras da UFMT, turma 2016

Na oitava aula desta disciplina, como atividade final, os acadêmicos escolheram entre desenvolver materiais para o ensino-aprendizagem da VisoGrafia, produzir um texto em VisoGrafia ou um artigo sobre a experiência da aprendizagem da mesma. Dentre os materiais desenvolvidos, apresentamos os que seguem abaixo. Os textos serão expostos e analisados em futuras produções acadêmicas.

Texto escrito em VisoGrafia por uma aluna matriculada na disciplina de escrita de sinais ao final da disciplina que tem carga horária de 32 horas. "Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT. Aluna: Áurea de Santana Bueno. Docente: Claudio Alves Benassi. Disciplina Escrita de Sinais - Sistema VisoGrafia. 'Minhas férias' - Nas férias, eu viajei para o Rio Grande do Sul. Eu e meu avô fomos juntos ao circo. No circo tem palhaçadas, risos, pessoas se divertindo e muitas piadas. Eu fiquei feliz ao passear com meu avô e já estou ansiosa pelas próximas férias."